Em defesa da literatura e do uso consciente dos recursos públicos de fomento à leitura

Carta aberta aos gestores públicos, educadores, pais, estudantes e à sociedade civil.

O Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo manifesta, com profunda preocupação, sua posição diante dos recentes acontecimentos na Bienal do Livro de Minas Gerais. Relatos de uma agente literária revelaram que vouchers destinados à aquisição de livros por estudantes, oriundos de recursos públicos da Secretaria de Educação (SEduc), estão sendo utilizados para a compra de livros de colorir – itens que, embora tecnicamente possuam ISBN, não se enquadram como obras literárias ou educativas de valor cultural.

A situação descrita é alarmante: filas imensas, brigas entre famílias e o fechamento temporário de estandes para reposição de estoque evidenciam um desvio de prioridades. Recursos públicos destinados a incentivar o hábito da leitura, a aproximar estudantes da riqueza da literatura brasileira e a fomentar a criatividade estão sendo direcionados para produtos meramente recreativos, muitas vezes importados ou produzidos em larga escala, sem vínculo com a formação crítica e cultural dos jovens.

Por que isso nos preocupa?

Os vouchers para compra de livros são uma oportunidade única de democratizar o acesso à literatura e de valorizar autores nacionais, especialmente em um momento em que a leitura enfrenta competição acirrada de outras mídias. Ao permitir que estudantes escolham suas próprias obras, estimulamos a autonomia, o gosto pela leitura e a descoberta de vozes brasileiras que refletem nossa identidade. No entanto, quando esses recursos são canalizados para produtos de passatempo, negligenciamos o potencial transformador da literatura e prejudicamos um setor já fragilizado: o das artes escritas.

O que podemos fazer?

Regulamentar o uso dos vouchers: É urgente estabelecer critérios claros sobre quais tipos de materiais podem ser adquiridos com recursos públicos. Itens de colorir, que não possuem conteúdo narrativo, informativo ou poético, devem ser excluídos dessa lista.

Conscientizar educadores e famílias: Professores e responsáveis precisam ser orientados sobre o valor da literatura para o desenvolvimento intelectual e emocional dos estudantes. Sugestões de leituras, parcerias com autores locais e campanhas educativas podem direcionar melhor as escolhas.

Valorizar autores nacionais: Incentivamos programas educacionais a priorizarem obras de escritores brasileiros, garantindo visibilidade a narrativas que dialogam com nossa realidade e fortalecem a economia criativa do país.

Ter transparência e fiscalização: A aplicação de recursos públicos deve ser acompanhada por órgãos competentes para evitar desvios e garantir que o objetivo cultural e educacional seja cumprido.

Chamamos todos os envolvidos a refletirem: a leitura não é apenas um direito, mas um instrumento de emancipação. Permitir que estudantes escolham livros é confiar em seu potencial para construir uma sociedade mais crítica e criativa. Porém, para que isso se concretize, é fundamental que as políticas públicas sejam pautadas por critérios éticos e e culturais, não por práticas mercadológicas que priorizam o consumo rápido.

O Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo reafirma seu compromisso com a defesa da literatura brasileira e se coloca à disposição para colaborar em iniciativas que promovam o acesso consciente e qualitativo aos livros. Juntos, podemos garantir que cada voucher seja um passaporte para o universo da imaginação, da reflexão e do orgulho de nossa cultura.

Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo
12 de maio de 2025